Como funciona a dublagem de Games no Brasil?

Você sabe como funciona essa adaptação para o nosso mercado e quais são as dificuldades encontradas?

O Brasil é um dos países que mais consomem games no mundo, e por ter um mercado grande, várias produtoras olham para nossa terra pensando em regionalizar seus games.

Entendendo como funciona a dublagem nos jogos

Antes de mais nada, precisamos entender como é feito o processo de dublagem nos games, e como ele se diferencia de outras mídias de entretenimento como Filmes. Geralmente em filmes há a gravação das imagens e a captação de áudio, depois é feito uma sincronização ou edições por parte dos estúdios.

Nos games, na grande maioria dos casos, é feito uma modelagem do personagem, depois feito uma animação de movimentação, ou é capturado o movimento de um ator. Nesse segundo caso, provavelmente também capturam as expressões faciais de falas. Abaixo uma imagem da atriz que participou do game Hellblade Senua’s Sacrifice.

A esquerda Senua, a direita Melina Juergens

No caso, os atores precisam gravar as vozes que irão dar sentimentos e profundidade aos personagens. Depois de ter a voz gravada, é feito a adaptação na programação do game, como uma sincronização.

Ai que entra a diferença com os filmes, todos os áudios são separados em inúmeros arquivos, até mesmo gravados separados, e na programação do game, eles são disparados conforme eventos pré determinados, ou seja, eles não seguem um fluxo sempre contínuo como em um filme.

Por exemplo, na série FIFA, se um jogador passa a bola, e o narrador fala “Fulano tocou para Ciclano”, ele teve de gravar várias versões dessa fala, mudando nomes de jogadores, mudando entonação, mudando velocidade da fala, tudo dependendo de como está o jogo. Se jogadores estão afastados do gol, pode ser falado pausadamente, se eles estão avançando, se fala com mais emoção como quando estão próximos ao gol.

FIFA

Com essas milhares de falas, os games são programados para que quando, for disparado um evento, ele “tocar” o áudio que foi gravado para aquela situação.

E no Brasil? Como começou esse processo de Regionalização?

A Regionalização no Brasil

Aqui no Brasil, os profissionais da área, chamam a dublagem dos jogos, de Regionalização, que basicamente significa adaptar o game para o nosso mercado, ao invés de chamar apenas de Dublagem, que seria como sobrepor a voz.

Apesar dos games dublados começarem a surgir no início dos anos 2000, eles começaram a ganhar força quase no fim da geração do Xbox 360 e Playstation 3 (inclusive se você se interessar, recomendo a leitura do artigo A evolução dos jogos brasileiros nos consoles). Jogos como Halo, God Of War, Battlefield e muitos outros hoje são adaptados totalmente ao português brasileiro.

Halo 3, chegando dublado no mercado em 2007

Mas antes de ser um mercado oficial, existia as dublagens de fãs, e até mesmo legendas. Sendo que jogos para Playstation 2, PC e Xbox, muitas das vezes eram traduzidos para o nosso idioma, além de ganharem versões hacks. Entre as dublagens, existiam games como Silent Hill, e entre as adaptações, o famoso Bomba Patch, que era uma adaptação do PES para o Campeonato Brasileiro.

Bomba Patch

Mas isso era apenas uma vontade dos fãs de terem jogos regionalizados aqui, e após a ascensão do mercado brasileiro, e a diminuição da pirataria, as publishers começaram a enxergar um potencial mercado consumidor, e a partir de então, cada vez mais games chegam regionalizados para cá.

Como funciona o processo de dublagem no Brasil?

Quando uma empresa quer regionalizar um game no nosso país, geralmente ela procura empresas de dublagem, a partir disso é feito uma negociação, porém existe uma diferença com a dublagem de filmes, às vezes o game não está 100% pronto, e diversas vezes, mandam apenas imagens conceituais dos personagens e a fala original.

Isso dificulta o trabalho dos atores que estão dublando, pois deve ser feita uma interpretação do que está acontecendo para que seja fiel ao game. Por exemplo, em um jogo estão conversando enquanto estão sendo perseguidos por bandidos, o ator deve interpretar essa ação sem ver as imagens, e a voz deve ficar o mais próxima da original.

Um exemplo disso foi com o ator André Ramiro (Tropa de Elite) que dublou um personagem em Battlefield 4, em que ele tinha que arrombar uma porta no game, e quase arrombou a do estúdio gravando essa fala, para dar profundidade e realismo na dublagem.

André Ramiro

Mas todo esse trabalho, não depende apenas do ator, mas sim de outro ponto importante, o da Direção de Dublagem. Como por exemplo, em jogos de esporte, os jogadores precisam parecer ofegantes e o microfone precisa estar um pouco afastado, já para narradores, a voz precisa ser clara, então é usado aqueles headphones profissionais com uma boa captação de áudio.

Além do que, o diretor precisa saber o que está acontecendo no game para orientar os atores, pois às vezes um estúdio quer escalar alguém famoso para fazer ponta nos games, só que a pessoa nunca atuou, e dublagem não é apenas ler as falas, mas sim interpretar.

Um exemplo que podemos notar foi com a cantora Pitty em Mortal Kombat, ou com o cantor Roger do Ultraje a Rigor no Battlefield. Em ambos os casos, não que a dublagem tenha sido ruim, mas ela poderia ter sido melhorada com um acompanhamento de perto. É que às vezes as empresas querem potencializar as vendas, chamando a atenção da mídia em geral (usando pessoas famosas para atingir um público maior), e esquecem da qualidade no produto final. Nesses casos em específico pode ter sido tanto a direção quanto a agenda de compromissos, fatores externos, a pressão em entregar o material rapidamente, etc.

Foto do Roger na capa do Battlefield

Após gravar os áudios, eles são processados e enviados aos estúdios responsáveis, que analisam um a um, e se encontrarem algo que não concordem, eles mandam de volta para revisão. É comum às vezes acontecer de pedirem para regravar cenas por causa da entonação, como em uma cena que era para o ator gritar, ele fala normalmente. Ou até mesmo por não dar tempo da fala, por exemplo, no original o tempo do áudio é de 2 segundos, e foi gravado apenas 1, para não ocorrer falhas no game, é necessário regravar e mandar novamente para análise.

Apesar de termos vários games dublados excelentes, muitas produtoras não tem condições para pagar um estúdio de dublagem, ainda mais empresas pequenas, e então surgem algumas alternativas…

Alternativas que desenvolvedoras utilizam

Para algumas desenvolvedoras que não possuem dinheiro para pagar por uma dublagem, ou que não contam com uma estrutura grande, recorrem muitas vezes a narrações em formato de “Blá Blá Blá” similar ao Banjo-Kazooie, e que foi recentemente utilizado em Celeste.

Outras, utilizam o mesmo som usado por antigos RPGs, como sons de pontos ou algo assim representando os textos mostrados. Abaixo uma imagem do game Celeste.

Temas polêmicos

Dessa forma, em ambos os casos, mesmo não tendo dublagem em nenhum idioma, o estúdio economiza apenas legendando os games nos idiomas suportados.

Referências:
atoresnomercado.com.br
gamerarkaico.wordpress.com

Bom pessoal, por hoje é só.

Abraços e até a próxima.

About Daniel Atilio

Analista e desenvolvedor de sistemas. Técnico em Informática pelo CTI da Unesp. Graduado em Banco de Dados pela Fatec Bauru. Entusiasta de soluções Open Source e blogueiro nas horas vagas. Autor do projeto Terminal de Informação, onde são postados tutoriais e notícias envolvendo o mundo da tecnologia.

Daniel Atilio

Analista e desenvolvedor de sistemas. Técnico em Informática pelo CTI da Unesp. Graduado em Banco de Dados pela Fatec Bauru. Entusiasta de soluções Open Source e blogueiro nas horas vagas. Autor do projeto Terminal de Informação, onde são postados tutoriais e notícias envolvendo o mundo da tecnologia.